Lince Ibérico Série: Big Trash Animals Sub-série: Plastic Localização: Lisboa, Portugal Ano: 2019 Créditos imagem: Bordalo II

Lince Ibérico Série: Big Trash Animals; Sub-série: Plastic; Localização: Lisboa, Portugal; Ano: 2019; Créditos imagem: Bordalo II


ESTRANHEZA

Vasco Santos

 

Freud escreveu Das Unheimliche em 1919 e o feitiço desse grande ensaio permanece.

Uma maneira produtiva de ir além de Unheimliche é aproximarmo-nos de H. P. Lovecraft e de Mark Fisher.

Um dos problemas com este conceito freudiano foi o facto de ter sido traduzido inadequadamente para o inglês como uncanny (desconcertante, arrepiante). Ora, Fisher diz-nos que a palavra que melhor captura o sentido é unhomely — o «infamiliar». E é aqui que o grande escritor H. P. Lovecraft se torna fundamental e nos religa a Freud.

Nos seus contos, a estranheza emerge frequentemente através de geometrias impossíveis, línguas incompreensíveis, temporalidades não humanas cuja simples visão dissolve a coerência psíquica. Em termos psicanalíticos, poder-se-ia dizer que Lovecraft encena o encontro com um real sem mediação — algo próximo do que Jacques Lacan designaria como o irrepresentável que rompe a ordem simbólica.

Um dos contos mais poderosos para ilustrar o que se quer aqui dizer é «A sombra sobre Innsmouth» (mas poderia ser, de entre outros, «A Cor Vinda do Espaço»).

Em Innsmouth, Lovecraft constrói uma atmosfera de estranheza progressiva através de uma pequena cidade costeira fora do tempo. Tudo ali parece ligeiramente deslocado: os habitantes têm uma aparência ambígua, os gestos são vagarosos, os edifícios parecem sobreviver a uma história esquecida. Nada é imediatamente monstruoso. O inquietante nasce, isso sim, da sensação de que existe um segredo inscrito na própria textura do lugar.

A relação com Freud é profunda.

O Unheimliche freudiano surge precisamente quando o familiar se torna estranho sem deixar de ser familiar. O elemento mais subtil aparece, porém, no final do conto: o protagonista descobre que aquilo que temia exteriormente afinal lhe pertence. O estranho vem de dentro. O monstruoso não era apenas o outro; era a verdade recalcada da sua origem. Aqui, Lovecraft aproxima-se angularmente de Freud: o horror nasce do retorno de algo ancestral que sempre habitou o sujeito.

Ao mesmo tempo, Lovecraft excede a psicanálise clássica. Essa ancestralidade não é apenas familiar ou edipiana, é cósmica e pré-humana. A identidade humana aparece como uma superfície frágil sob a qual persistem temporalidades arcaicas, quase geológicas. O sujeito descobre-se habitado por algo não humano. É precisamente este ponto que dialoga com Mark Fisher. «O esquisito, o inquietante e o unheimliche partilham algo entre si. Todos eles são sensações, mas são também modos: modos fílmicos e de ficção, modos de percepção, modos de ser, em última análise.» Fisher aproxima-se da estranheza destarte não como simples categoria estética, mas como experiência ontológica. Ele desloca a questão do interior psíquico para a própria paisagem cultural contemporânea.

Em Freud, a estranheza emerge quando o familiar regressa deformado: o duplo, a repetição, o automatismo, a incerteza entre o vivo e o morto. O estranho é aquilo que o sujeito recalcou e reencontra sob a forma inquietante. Lovecraft radicaliza essa experiência ao sugerir que o próprio cosmo é estruturalmente estranho. Para Fisher, é a própria realidade tardocapitalista que se tornou espectral. Vivemos entre centros comerciais vazios, burocracias sem rosto, vozes digitais sem corpo e promessas históricas falhadas. O inquietante deixa de ser apenas uma experiência clínica; ele constitui-se numa condição atmosférica da realidade.

Há aqui um ponto fundamentalmente psicanalítico: a estranheza surge quando o simbólico deixa de garantir continuidade ao mundo. O sujeito contemporâneo experiencia frequentemente uma dessubjectivação silenciosa — não uma explosão dramática da loucura, mas uma erosão subtil da presença. Fisher descreve um mundo povoado por fantasmas de futuros perdidos onde a cultura já não produz horizonte, mas, sim, repetição. Isso aproxima-se da compulsão à repetição freudiana: uma temporalidade sem elaboração, onde algo insiste sem conseguir transformar-se em memória viva.

Ou dito de outra maneira: o inquietante contemporâneo já não é apenas o fantasma escondido na casa: é a própria sensação de que a casa metafísica do humano talvez nunca tenha existido.

 

 

Referências:

Lovecraft, H. P., Os melhores contos de Howard Phillips Lovecraft, Lisboa, Saída de Emergência, 2009.

Fisher, Mark, O Esquisito e o Inquietante, Lisboa, VS., 2025.

Vasco Santos
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