Imagem: Esboço da porta da Igreja de Santa Maria, em Marco de Canavezes – Álvaro Siza Vieira
A psicanálise começa onde a ilusão de liberdade vacila. Habita esse território instável entre o dito e o reprimido e propõe um paradoxo inquietante: aquilo a que chamamos liberdade pode ser apenas uma encenação sofisticada, onde o “novo” se anuncia como ruptura, mas frequentemente não passa de uma variação do mesmo.Entre Eros e Tanatos desenrola-se este eterno conflito. A pulsão de vida empurra-nos para a criação, para o encontro, para o inesperado, ao passo que a pulsão de morte nos puxa para a repetição, para o retorno ao conhecido — mesmo quando esse familiar nos fere. Avançamos, mas com frequência nos damos conta de que caminhamos em círculos. E, no entanto, há algo de profundamente enigmático nisso: é precisamente na repetição que, por vezes, se abre a possibilidade de transformação. Repetir não é apenas regressar; pode ser insistir até que algo, finalmente, se desbloqueie.O trauma, sobretudo na sua dimensão transgeracional, atua como um dramaturgo invisível. Encenamos histórias que não escrevemos, lutos que não chorámos, silêncios que não vivemos. Sem o saber, tornamo-nos intérpretes de papéis antigos, convencidos de que estamos a improvisar. Aquilo que chamamos escolha revela-se, muitas vezes, como mandato — mas numa repetição que pede leitura, que exige escuta, que implora por um outro desfecho.A arte e a cultura tornam visível este teatro interior. Funcionam, em simultâneo, como ensaio e espelho, onde o humano se observa em hipérbole e distorção, em metáfora e em verdade. Em Poor Things, a promessa de um começo absoluto encarna numa figura sem passado, projeto de tabula rasa, virtualmente livre de qualquer inscrição anterior. Mas essa liberdade é ilusória: o gesto do criador, ao tentar poupá-la, aprisiona-a. Protegida da dor, a personagem também é privada da experiência e só no confronto com o mundo — e com o outro — ela começa verdadeiramente a existir.Já em Frankenstein, o drama inverte-se. Aqui, não há ausência de herança, mas sim excesso dela. A criatura, mosaico de fragmentos, carrega uma história que não consegue integrar. Sem nome, sem lugar, sem objeto de desejo onde se inscrever, encontra na violência a única forma de relação. O seu grito não é apenas de revolta, mas de desamparo: não há identidade possível sem reconhecimento.Para Pinóquio, a questão assume uma dimensão mais iniciática. Começando como marioneta — movido por fios que simbolizam, simultaneamente, o desejo e a imposição —, o seu percurso é uma travessia errante e reincidente. Mas é precisamente na repetição dos erros que algo se transforma. A descida ao ventre da baleia — esse espaço arcaico, uterino — marca um ponto de viragem. Para se tornar humano, Pinóquio não elimina o passado: imerge nele, atravessa-o e renasce.Estas narrativas revelam a inquietante verdade subjacente à condição humana: somos compostos por restos, por ecos e sombras, por vestígios de desejos que não são inteiramente nossos. No espaço analítico, este processo ganha corpo. O gabinete de análise torna-se um lugar onde o tempo se dobra: o passado infiltra-se no presente, repete-se, encena-se, reescreve-se. Não se trata de eliminar a repetição, mas de subjetivá-la, transformando-a em experiência emocional. O “novo” não surge como criação ex nihilo, mas como um gesto quase imperceptível que altera o curso do que parecia inevitável.A cultura, tal como o sonho, oferece um espaço privilegiado para esta elaboração. Ambos funcionam como laboratórios do possível. Neles, experimentamos identidades, confrontamos o absurdo, ensaiamos outras formas de existir. Tal como nos mitos, a transformação exige perda; não há mudança sem renúncia.A figura de Orfeu cristaliza esse dilema: descer ao mundo dos mortos sem olhar para trás. Mas talvez o verdadeiro desafio não seja não olhar, e sim olhar de forma diferente. A verdadeira inovação não é tecnológica, mas ontológica. Surge quando aceitamos a alteridade — em nós e no outro — e permitimos ser surpreendidos pelo estranho no lugar do familiar. Também o analista está implicado neste movimento. Sem um trabalho constante sobre si próprio, arrisca-se a entrar no mesmo jogo de repetições que o paciente traz consigo. Mais do que um lugar neutro, a psicanálise é um campo vivo, no qual dois inconscientes se encontram e se afetam mutuamente, em proporções diversas.Na intimidade partilhada do gabinete de análise, entre os fios cortados e os primeiros passos, o novo não irrompe necessariamente como uma revolução estrondosa, mas como a coragem silenciosa de atrever-se a ser, finalmente, de carne, osso e alma.O que há de novo na psicanálise? A proposta mantém-se: oferecermo-nos como compagnon de route nessa jornada de transformar o destino (o que foi herdado) em escolha (o que se faz com o que se herdou), para quem conseguir escolher a sua própria versão de si, não como negação do passado, mas como a sua reinvenção.
- Conceição Tavares de Almeida [ Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise ]
- Conceição Tavares de Almeida [ Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise ]


