Fotografia: João Vasco

Lei do ruído

 

João Tordo

 

Escritor

 

Há uns anos largos, comecei a ouvir zunidos sempre que me deitava. Não era um zunido qualquer, como o de um frigorífico ou de uma máquina de lavar na função de secagem; era um zunido consistente e persistente, que parecia nascer no interior do meu cérebro e ocupar os lobos temporais, o córtex auditivo. Os zunidos eram de tal maneira intensos que, nos melhores dias, eu adormecia de cansaço, e, nos piores, tinha de enfiar bolas de silicone nos ouvidos que, em vez de fazerem desaparecer a frequência, pareciam, por vezes, ampliá-la — como se estivesse dentro de uma caverna profunda e existisse um bando de morcegos adormecidos dentro da minha cabeça.

O mistério levou tempo a ser resolvido, mas a minha luta com o ruído não começou aí. Havia começado na infância, perante as vozes mais autoritárias dos adultos, ou o som de um martelo pneumático, ou o ruído da multidão no antigo Estádio da Luz quando o Benfica marcava um golo. Em adolescente, contrastei a minha aversão ao ruído com o gosto pela música — o volume máximo da velha aparelhagem Sanyo mitigava o meu desconforto, embora, no geral, a hora mais confortável para mim fosse sempre quando toda a gente ia para cama, e as possibilidades de berros, estrondos, buzinas, ambulâncias, gente embriagada ou discussões diminuíam consideravelmente.

Ao longo dos anos, fui escondendo a minha aversão ao barulho com subterfúgios mais ou menos comuns: música em headphones, janelas de vidros duplos, inúmeros tampões de diversas marcas (recomendo a versão Amazon dos loop), auscultadores com tecnologia de noise cancelling, etc. Mudei de apartamento duas vezes por causa do barulho — da primeira, porque tive o azar de ter um hospital construído nas traseiras da minha casa e, da segunda, porque tive o azar de ter um hospital demolido nas traseiras da minha casa. Não estou a gozar — o primeiro foi o UCCI Rainha Dona Leonor, o segundo, o Hospital da CUF Infante Santo. De modo geral, diria que tive quase dez anos de barulho ininterrupto sempre que abria as janelas durante o dia: logo eu, uma criatura visceralmente adversa ao barulho, experimentei na pele e nos nervos o que a as consequências do investimento imobiliário em Lisboa trouxe: uma avalanche inautida de ruído, pó, constante trepidação e a sensação de que tudo está constantemente a cair e que ‘mandar paredes abaixo’ (ou edifícios inteiros) é uma espécie de desporto nacional.

Na verdade, eu acho que é. Graças à minha profissão, tive oportunidade de andar um bocadinho por todo o lado, e nunca conheci gente tão sequiosa de ‘entrar em obras’ como os portugueses. De mandar paredes abaixo. De falar com o empreiteiro. De discutir com o empreiteiro. De despedir o empreiteiro, e arranjar outro empreiteiro. De ir acima do orçamento. Dos acabamentos e das torneiras, do estuque e do aço corten. De remodelar a casa de banho. De pinturas. De pintar por cima das pinturas. É preciso. Tem de ser. Precisa de obras. Precisa de obras. Precisa de obras.

No meio de tudo isto, há outras fontes constantes de desassossego para a minha cabeça esmagada e esmifrada pelo excesso de estímulos sensoriais: do tão português buzinar, às motos ‘tunadas’, ao palerma com o rádio do carro no máximo volume (porque é preciso que as pessoas saibam que ele foi ao concerto do Bad Bunny), à inacreditável obsessão com música em restaurantes. Quem é que ouve música em restaurantes? Quem é que vai ao restaurante ouvir música, ainda por cima em alto volume? Pôr música em restaurantes serve o mesmo propósito de pôr música no berçário do hospital da Estefânia — nenhum. Na melhor das hipóteses, os bebés ficam ligeiramente desorientados; na pior, ficam como eu. Nesse ano em que comecei a ouvir zunidos, fui a um otorrino, que me disse que os meus ouvidos não tinham problema nenhum. Já o audiologista diagnosticou-me com misofonia, ou SSSS — síndrome da sensibilidade selectiva ao som. Eu respondi que a minha sensibilidade não era particularmente selectiva, ao que ele argumentou que, se estivesse na Gulbenkian a assistir a um concerto de Mozart (os decibéis podem chegar aos 120, os mesmos do martelo pneumático), provavelmente não ficaria agitado, ansioso nem raivoso. E o zunido, perguntei eu? Isso não sei, respondeu ele.

O mistério continuou até que, um dia, o som desistiu. Chorei agarrado à almofada, consolado, como todos os sobreviventes. Depois, reparei que os vizinhos do terceiro andar se tinham mudado, e a caixa de alimentação do ar condicionado, três pisos acima de meu, desaparecera. Os meus ouvidos magoados pelo ruído haviam captado, anos a fio, aquilo que mais ninguém ouvia — o zunido de uma estúpida máquina supostamente silenciosa, vinte metros acima do meu quarto. Desde então, comecei a dormir com uma máquina de ruído castanho na cabeceira da cama. Provoco eu, assim, os meus próprios distúrbios sonoros; com esses eu seu lidar.

Imagino que, um dia, a civilização será essencialmente ruído.

Que o silêncio virá a ser o privilégio dos muito ricos, como os diamantes ou um Lamborghini. Afinal, como todas as coisas boas, não são de graça. Alguém há-de estar a pensar nisto. Talvez o silêncio se venha a vender na Amazon. Enquanto ele ainda existir de borla, contudo, aqui e ali — na calada da noite, numa tarde solitária de Agosto —, fiquem a saber que não estão sozinhos. Eu aí estarei, calado como um ratinho.

 

João Tordo

Escritor

 

Quando o ruído não vem do grito

 

Conceição Melo Almeida
 
Psicanalista

 

Muito frequentemente ligamos o ruído ao excesso emocional: à intensidade das emoções, à impulsividade, à agitação ou ao fluxo incessante de informação, alimentado pela lógica da atualização contínua e da reação imediata. Há uma excitação permanente, mas também uma crescente saturação.

Contudo existe um outro ruído, mais silencioso: a tendência para explicar a experiência antes de a viver. Na perspetiva psicanalítica reconheceríamos aqui a intelectualização: os conceitos ocupam o lugar do encontro emocional e o discurso torna-se uma proteção contra aquilo que ainda não nos permitimos sentir, como se a explicação pudesse funcionar como defesa face à intensidade — dolorosa ou prazerosa — da vivência.

Esta distinção torna-se particularmente evidente numa cena frequentemente atribuída a Bion. Durante um seminário clínico, perante discussões excessivamente teóricas, interrompeu abruptamente a sessão, soltou um grito e afirmou: «Isto é psicanálise!»

E, no entanto, ele foi um dos mais sofisticados pensadores da psicanálise. Aos 19 anos comandou um tanque na Primeira Guerra Mundial. Talvez por isso a sua obra regresse tantas vezes ao paradoxo de ter sobrevivido, sentindo que uma parte de si ficara para sempre naquele campo de batalha. O seu grito pode ser ouvido não como um gesto contra a teoria, mas como um alerta para o risco de o pensamento se afastar da experiência que lhe dá origem. Antes das interpretações e dos modelos teóricos existe uma experiência emocional viva que procura ser acolhida, tolerada e transformada.

Se Bion nos mostra o grito como interrupção da intelectualização, Marina Abramović parece trazer a mesma questão por outra via: mostra-nos o que permite que um grito deixe de ser mera descarga.

Em 2013 realizou, em Oslo, uma performance inspirada em O Grito de Edvard Munch, precisamente no local associado à paisagem que inspirou a pintura. Em vez de representar o grito, convidou centenas de pessoas a gritarem diante dessa paisagem. A moldura em ferro permanece ainda hoje, convidando os visitantes.

O que impressiona não é apenas o grito, mas o enquadramento que o torna possível. Há um lugar, um tempo, uma moldura e uma presença que testemunha. O grito deixa de ser espetáculo para se tornar experiência. Cada participante aproxima-se de algo muito próprio; o grito torna-se uma tentativa de dar forma ao que ainda não encontrou palavras.

Nem sempre é a intensidade da emoção que dificulta o pensamento. Por vezes, é a rapidez com que procuramos organizá-la. Multiplicam-se explicações e conceitos, enquanto os afetos permanecem praticamente intocados.

É neste ponto que a intelectualização se torna problemática: organiza sem transformar. Talvez por isso encontre hoje um terreno tão favorável. Numa cultura que valoriza a eficiência e o domínio técnico, “pensar” pode tornar-se uma forma de evitar sentir.

Assim, a intelectualização constitui também uma forma de ruído, acabando por se dissociar precisamente daquilo que procura compreender.

A experiência humana que precede a organização é feita de corpo, afeto, surpresa, vulnerabilidade e desconhecimento. É desse território que emergem os gritos, os sintomas, os sonhos, os silêncios e as perguntas ainda sem resposta.

Nem todo o grito é ruído. E nem todo o ruído sabe gritar. Às vezes, aquilo que mais nos afasta da experiência emocional é uma elaboração desligada desta. Talvez este seja um desafio que não diz respeito apenas à psicanálise.

Numa cultura que privilegia respostas rápidas e explicações imediatas, todos somos tentados a dar forma demasiado cedo àquilo que ainda precisava de ser vivido. Precisamos da teoria, não para substituir o grito, mas para lhe oferecer uma moldura

suficientemente sólida.

Talvez seja precisamente nesse espaço intermédio — entre o que já conhecemos e o que ainda não conseguimos nomear — que o pensamento recupera a sua função: não substituir a experiência, mas torná-la habitável e pensável.

João Tordo
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