Fotografia: Béatrice B.

 

Winnicott e Machado de Assis através d’O Espelho

 

Pedro Salem

 

SPP

Caro leitor, peço que protejam suas perguntas das respostas, sobretudo as apressadas. E, principalmente, não as dirijam a mim que, infelizmente, não poderia respondê-las.
Apenas confiem no relato abaixo, que vos garanto ser tão verdadeiro quanto qualquer fruto de nossa imaginação. O facto é que, por mera obra do acaso, estava eu a divagar em certa tarde ensolarada num café quando dei por mim a ouvir uma conversa muito interessante na mesa ao lado. Tratavam, como dizia um deles, de “questões de alta transcendência” e, como se transportado para outra dimensão, fixei-me ali. De tão complexa a conversa, apenas retive alguns trechos, que faço o esforço de reproduzir abaixo:

– Amigo Machado, fiquei muito intrigado com seu conto O Espelho 1 … Sabes, senti-o como um feixe de luz sobre uma angústia sombria que tenho notado em mim ultimamente ao escutar alguns de meus pacientes. Ando aflito, pois percebo que as minhas interpretações já não surtem o mesmo efeito de outrora. Há qualquer coisa de novo no ar, um tipo diferente de sofrimento… Tenho visto alguns cujas dores têm a ver com um sentimento  de futilidade, vazio, algo que descrevem com dificuldade, próximoà falta de sentido para a vida… Ainda não percebo muito bem o que se passa com eles…
– Estás a deixar-me curioso Donald. Em que é que a história de Jacobina, meu personagem, o tem inspirado?
– Gostei imenso da hipótese declarada por ele em conversa com os amigos, de que cada pessoa possuiria duas almas, uma interior e outra exterior, e de que esta última, em particular, seria formada pelo olhar dos outros à sua volta. Como ele diz, ambas possuem o ofício de transmitir a vida e “quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”.
– Pois… como leste, lá pelos seus 25 anos, Jacobina passou a receber enorme admiração das pessoas após obter o cargo de alferes da Guarda Nacional, a ponto de franquear sua existência à estima que viera com a nova farda… virara o “senhor alferes” …
– É verdade… como tu dizes no conto, “o alferes eliminou o homem”, de tão obcecado que ficou com o efeito nos outros de sua nova imagem … Mas o que mais me intrigou foi a passagem na qual, por obra do acaso, Jacobina ficou por um longo tempo sozinho na quinta de sua tia, onde fora altamente admirado por seu posto. E foi quando, sem ninguém para reconhecê-lo como alferes, começou a sentir o mesmo vazio que reconheço em alguns pacientes… Como tu descreves, ele “tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico”
errando pela casa. Ou seja, sem ninguém para reconhecer sua condição, parece ter passado a duvidar da própria existência… Sentia-se apático, confuso… e recuperava seu frescor e vitalidade somente à noite, ao sonhar-se novamente como alferes.

– Sim, caro Donald, até que teve a ideia de voltar a vestir sua farda para então se mirar em um grande espelho que encontrara na quinta. Foi quando recuperou algo de precioso em seu ser.

– Realmente, ver-se refletido no espelho teve enorme impacto…, mas fico a supor que aquilo não iria perdurar por muito tempo, na medida em que passara a depender daquela imagem especular. Sabes, não acredito que na farda estivesse ancorado o cerne de sua existência… se assim fosse, claramente haveria algo de errado com ele… Percebo a importância do prestígio que o papel social lhe conferia, mas também fico a pensar se
ele não encobriria qualquer outra coisa, um lado mais verdadeiro de seu ser… algo que tu descreves como a alma interior e ainda por ser descoberta…
– Ah, vejo que percebeste a ironia implícita no conto. Eu não poderia estar mais de acordo contigo… por mais importante que seja o conteúdo da alma exterior, também suponho que ela esconda, talvez até proteja, qualquer coisa de mais fundamental que temos dificuldade de acessar e de comunicar. Uma dimensão do ser capaz de fazer as pessoas se sentirem mais reais, autênticas e criativas…
– Porém, amigo Machado, diferentemente de Jacobina, que defende a ideia de uma alma voltada para fora e outra para dentro, prefiro concebê-las como aspetos verdadeiro e falso do nosso ser… partes que não possuem existência independente. O que achas?
– Se me permites sinceridade, não aprecio tanto os conceitos de verdadeiro e falso… Tendo a concordar com aquele filósofo alemão que anda a maldizer a existência de Deus e da Verdade… Percebo o que estás a propor, mas penso que a imagem fardada de Jacobina não era falsa… tinha enorme valor. Falsa talvez fosse a crença de que essa parte de sua alma era única ou a mais importante sobre a qual assentaria sua existência.
Nesse caso, sim, diria eu, o vazio e a futilidade seriam inevitáveis…
– Caro amigo, prometo levar em conta sua opinião… Devo agora apressar-me, pois meu comboio para Paris sai em breve. Vou à procura de um dos nossos, que parece estar a pensar criativamente sobre um estádio do espelho na constituição da vida anímica… 

Quem sabe dois dedos de prosa com ele, como dizem em sua terra, ajude a iluminar minhas ideias e a condição de meus pacientes…

1 ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II. Consultado em 10/06/2026.
https://dominiopublico.mec.gov.br/download/texto/bv000240.pdf

 

 

 

Espelho

 

Pedro Mendes, bailarino

 

Espelho, uma auto-prisão que retém o momento numa qualquer perfeição tóxica, irreal e retira às pessoas o que as torna únicas. Na minha evolução como bailarino profissional, ou em plena carreira, a simetria e a ordem sempre foram características consideradas como perícia, mestria ou mesmo capacidade. A realidade é bem mais complexa. O que experienciei na "pele", bem como os colegas profissionais com quem tive o privilégio de partilhar a “arena”; que é o palco, foi uma realidade que mata lentamente a capacidade de adaptação e a criatividade, fundamentais para determinar a sobrevivência. Os contextos onde nos movemos estão infinitamente em mudança. Como é que esperamos ter a capacidade de proliferar em ambientes que mudam de circunstâncias se estamos focados a treinar uma resposta uniforme e constante? Repetir a mesma ação até estarmos perfeitos, quase desumanos de tão inatingíveis. Isto é o que o bailarino tem como base de trabalho e a sua ferramenta mais eficiente nesta busca pelo extermínio das imperfeições é sem dúvida o Espelho.
As redes sociais são outro tipo de espelho, mas não menos feroz. Estamos todos do outro lado deste espelho, a fazer scroll, sem qualquer pensamento crítico e sem refletir sobre os danos causados à nossa liberdade de expressão. Hoje olho para o espelho como uma ferramenta que pouco serve os meus objetivos. Depois da pandemia passámos a fazer as reuniões online, que no passado aconteciam frente a frente com o foco no outro. Agora temos a projeção constante da nossa imagem no ecrã, um espelho. Passamos o dia a olhar para nós, numa auto consciencialização
constante, que nos retira a capacidade de nos abstrairmos, de ver o outro e o que nos rodeia, de absorver informações fundamentais sobre o contexto. Mais uma vez, passamos a atuar de forma pouco funcional para as necessidades de adaptação ao contexto e suas mudanças. No meu imaginário questiono-me sobre as consequências, nas áreas da vida e profundidade dessas consequências para a saúde mental.

 

Pedro Salem
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Pedro Mendes

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